Chefe do clima da ONU diz que países fora de acordos contra aquecimento global terão inflação maior
Simon Stiell, secretário da ONU para mudanças climáticas, discursou na abertura da COP-30. Crédito: Canal Gov
A quantidade de calor acumulado pela Terra atingiu um nível recorde em 2025, com possíveis consequências por centenas — e até milhares — de anos, alertou nesta segunda-feira, 23, a Organização Meteorológica Mundial (OMM), agência ligada à ONU.
“O clima global está em situação de emergência. Estamos levando o planeta a ultrapassar seus limites. Todos os principais indicadores climáticos superaram o nível de alerta”, afirmou o secretário-geral da ONU, António Guterres, durante a divulgação do relatório anual sobre o estado do clima.
Pela primeira vez, o documento inclui entre os principais indicadores o chamado desequilíbrio energético da Terra, que mede a diferença entre a energia que entra e a que sai do sistema do planeta.

Relatório da Organização Meteorológica Mundial aponta agravamento do desequilíbrio energético do planeta e riscos por séculos Foto: Gabriela Biló/GABRIELA BILó/ESTADÃO
Em condições estáveis, esses fluxos tendem a se equilibrar. No entanto, o aumento das concentrações de gases de efeito estufa — como dióxido de carbono (CO₂), metano e óxido nitroso — tem rompido esse balanço, impulsionando o aquecimento contínuo da atmosfera e dos oceanos, além do derretimento de geleiras.
Segundo a OMM, o desequilíbrio vem se intensificando desde o início das medições, em 1960, especialmente nas últimas duas décadas, até alcançar um novo recorde em 2025.
“A atividade humana está alterando cada vez mais o equilíbrio natural, e sofreremos as consequências por centenas e milhares de anos”, afirmou a secretária-geral da OMM, Celeste Saulo.
O relatório também confirma que o período entre 2015 e 2025 reúne os 11 anos mais quentes já registrados. O ano passado aparece entre o segundo e o terceiro mais quente da série histórica, com temperatura cerca de 1,43°C acima da média do período pré-industrial (1850-1900).
Já 2024, influenciado por um forte episódio de El Niño, segue como o ano mais quente já observado.
Eventos extremos registrados ao longo do período — como ondas de calor, chuvas intensas e ciclones tropicais — causaram impactos significativos e evidenciaram a vulnerabilidade de economias e sociedades, segundo a organização.
O aquecimento dos oceanos e o derretimento de gelo também têm provocado a elevação do nível médio do mar, em um processo que se acelerou desde o início das medições por satélite, em 1993. Em 2025, o nível estava quase 11 centímetros acima do observado no início da série.
Cerca de 91% do excesso de calor do sistema climático é absorvido pelos oceanos, que funcionam como um amortecedor do aquecimento nas áreas continentais. Ainda assim, o conteúdo de calor oceânico atingiu novo recorde em 2025, e a taxa de aquecimento mais do que dobrou entre os períodos de 1960-2005 e 2005-2025.
Ao mesmo tempo, as camadas de gelo da Antártida e da Groenlândia perderam massa de forma significativa, enquanto a extensão do gelo marinho no Ártico ficou entre as menores já registradas desde o início das observações por satélite.
Especialistas da OMM afirmam que o clima global ainda sofre influência do fenômeno La Niña, geralmente associado a temperaturas mais baixas. A tendência, no entanto, é de retorno a condições neutras ao longo do ano, com possibilidade de um novo El Niño na sequência, o que pode elevar novamente as temperaturas globais.
“Sejamos francos: a situação é alarmante”, afirmou Ko Barrett, secretária-geral adjunta da OMM. “Esses indicadores não apontam para um desfecho favorável.”
Para Guterres, o cenário exige resposta urgente. “O caos climático está se acelerando, e qualquer atraso na adoção de medidas traz consequências mortais”, disse./AFP