Friday, March 27, 2026
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‘Nuremberg’ expõe verdade aterrorizante sobre o nazismo ao contar relação de Göring e psiquiatra

by admin7
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No cinema, nazistas foram retratados quase sempre como monstros, seres sem alma, sociopatas e psicopatas, muitas vezes de forma caricatural. É uma mensagem mais fácil, muitas vezes até ajudando a propaganda norte-americana no pós-guerra. Mas, aqui e ali, outras obras pintaram retratos mais complexos – e bem mais assustadores.

É o caso do recente Zona de Interesse (2023), do inglês Jonathan Glazer, ganhador do Grande Prêmio do Júri e do prêmio da Fipresci (Federação Internacional de Críticos de Cinema) em Cannes e de dois Oscars (produção internacional e som). O longa foca no comandante de Auschwitz Rudolf Höss e sua família, que vivem em uma casa colada no campo de concentração e extermínio e cuja maior preocupação é ter de renunciar à sua vida privilegiada em meio aos gritos horripilantes que vêm do lado de lá do muro.

Nuremberg, estrelado pelos vencedores do Oscar Russell Crowe e Rami Malek e que estreou no Brasil nesta quinta-feira, 26, também faz parte dessa lista de produções. Confira outras estreias do cinema e do streaming.

Como o título indica, o filme escrito e dirigido por James Vanderbilt, roteirista de Zodíaco (2007) e O Espetacular Homem-Aranha (2012), mostra os Julgamentos de Nuremberg, realizados já a partir de 1945, poucos meses após a rendição da Alemanha, para condenar líderes nazistas pelas atrocidades cometidas durante a Segunda Guerra Mundial. Os Julgamentos foram um marco do direito penal internacional.

O filme Julgamento em Nuremberg (1961), dirigido por Stanley Kramer e estrelado por Spencer Tracy, Marlene Dietrich, Burt Lancaster, Judy Garland e Montgomery Clift, já havia retratado o evento, mas com personagens fictícios representando juízes e promotores nazistas acusados de crimes contra a humanidade em 1947.

Os Julgamentos não foram unanimidade em princípio – havia quem quisesse apenas um tribunal para exibição, outros, apenas execuções sumárias. Mas eles acabaram sendo uma iniciativa conjunta de Estados Unidos, Reino Unido, França e União Soviética para julgar oficiais, funcionários e líderes nazistas por crimes contra a paz, crimes contra a humanidade, crimes de agressão e crimes de guerra, expondo, assim, suas ações abomináveis ao mundo. Cenas chocantes filmadas na liberação dos campos de concentração e extermínio por soviéticos e norte-americanos foram exibidas na ocasião.

O psiquiatra e Göring

Vanderbilt, que só tem um crédito de direção no currículo (Conspiração e Poder, de 2015), acalentava a ideia de contar a história de Nuremberg fazia 13 anos, desde que leu a proposta do livro de não ficção O Nazista e o Psiquiatra, do jornalista Jack El-Hai, lançado no Brasil pela editora Planeta. O volume, publicado nos Estados Unidos em 2014, relata o trabalho do Dr. Douglas Kelley (papel de Rami Malek no filme) com os 22 primeiros prisioneiros nazistas. O mais proeminente era Hermann Göring, fundador da Gestapo, comandante-chefe da Força Aérea Alemã e Reichsmarschall, nomeado pelo próprio Adolf Hitler como seu sucessor. Göring é interpretado por Russell Crowe.

“Eu não sabia que havia psiquiatras na Segunda Guerra Mundial”, afirmou o cineasta em coletiva de imprensa com a participação do Estadão. “E com certeza não sabia de um que tivesse tido esse papel.” Depois de adquiridos os direitos, começou a pesquisar obsessivamente, lendo o livro de El-Hai conforme ele era escrito.

“Pensei que meu filme se passaria inteiramente na cela, com Göring e Kelley”, explicou Vanderbilt. A função mais imediata de Kelley era avaliar se os presos tinham condições de enfrentar o julgamento – ou seja, provar que não eram incapacitados mentalmente – e zelar pela sua saúde mental, para que não repetissem a ação de outros nazistas, incluindo Hitler, Joseph Goebbels e Heinrich Himmler, de tirar sua própria vida.

O trabalho do psiquiatra com os nazistas seria, em si só, um filme interessante. Mas a Segunda Guerra é um momento tão crucial da humanidade que seus personagens e histórias não param nunca de render material para o cinema. E, ao fazer pesquisas tão extensas, Vanderbilt topou com alguns deles. Por exemplo, o juiz da Suprema Corte dos Estados Unidos Robert Jackson, interpretado por Michael Shannon.

“Eu nunca tinha ouvido falar dele também, e foi ele quem disse: ‘Não podemos simplesmente executar esses homens. Precisamos levá-los ao tribunal’. O Exército norte-americano não tinha nenhum interesse em um julgamento, e o primeiro-ministro do Reino Unido Winston Churchill também não”, afirmou o diretor. “Jackson disse que era fundamental que houvesse um julgamento. Ele tirou licença, voou para Nuremberg e se tornou o promotor-chefe.”

Na sequência, Vanderbilt descobriu Howie Triest, um soldado vivido por Leo Woodall que serviu como tradutor para Kelley. Não convém desenvolver aqui, mas é uma daquelas histórias de cinema que só a realidade pode oferecer. É ele quem diz uma das frases mais impactantes do filme: “Você sabe por que isso aconteceu aqui? Porque as pessoas deixaram”.

Um lembrete para as novas gerações

Vanderbilt, cujos avós lutaram contra os nazistas, quis recuperar esse primeiro Julgamento de Nuremberg, que aconteceu mais de 80 anos atrás, justamente porque percebeu que seus filhos, por exemplo, encaram a Segunda Guerra com a mesma distância da Guerra de Secessão (1861-1865).

O ator Michael Shannon sentiu a responsabilidade. “Minha vida não se compara em nada à de Jackson, mas acho que o consolo de estar em uma profissão que pode ser considerada um tanto tola às vezes é poder informar o mundo, outras pessoas, sobre coisas que talvez não saibam. Contar histórias que são importantes”, disse. “E o cinema ajuda a absorver essas histórias. O que meu personagem fala no início do julgamento é uma das peças de oratória mais emocionantes da história da civilização.”

Em sua abertura, Jackson disse: “Os erros que procuramos condenar e punir foram tão calculados, tão malignos e tão devastadores que a civilização não pode tolerar que sejam ignorados, porque não conseguiria sobreviver à sua repetição”.

Rami Malek disse que sempre se sente atraído por projetos que levantam questionamentos. “Seja sobre identidade ou poder ou responsabilidade. De certa maneira, escolher contar certas histórias é minha maneira de engajar com ideias complexas sobre cumplicidade e silêncio. E, para mim, é uma maneira de manter discussões abertas. Em Nuremberg, a pergunta é muito direta: o que fazer diante da injustiça?”

Não à toa, uma frase que aparece no longa é do filósofo britânico R.G. Collingwood: “Se você quer entender do que o homem é capaz, precisa olhar para o que o homem fez”.

O nazista como ser humano

Além de punir os responsáveis pela morte de milhões de pessoas na guerra e pelo sistema de extermínio de milhões de judeus, romanis e outros e de divulgar essas atrocidades para que não fossem repetidas, os Julgamentos de Nuremberg queriam desvendar por que os nazistas fizeram o que fizeram. O papel mais importante de Kelley, na verdade, era esse.

Ele usou diversos métodos para analisar os 22 prisioneiros, sendo a conversa a principal, especialmente com Göring. Para filmar as cenas, Malek e Russell Crowe dividiram uma cela em tamanho real, não muito grande, sem as paredes falsas e outros truques de cinema. “Foi fascinante ser vítima do charme dele e tentar escapar, como Douglas Kelley fez. Acho que isso criou tensão e conflito para o personagem, não apenas no filme, mas na vida dele”, disse Malek.

Entre os 22 nazistas, Kelley enfrentou de tudo: Robert Ley (vivido no filme por Tom Keune), líder da Frente Trabalhista, tinha problemas com álcool e comportamento errático, Julius Streicher (Dieter Riesle), editor do jornal Der Stürmer, era um antissemita agressivo, e Rudolf Hess, um vice de Hitler, dizia ter amnésia. Mas Göring era charmoso, inteligente, envolvente.

Kelley se viu simpatizando com Göring. E, para Malek, isso deve ter sido aterrorizante. Porque a resposta esperada à avaliação dos prisioneiros era de que eles eram monstros, psicopatas, exceções da humanidade. Essa seria a conclusão mais confortável, como disse Joel Dimsdale, que analisou os relatórios de ambos e escreveu o livro Anatomy of Malice: The Enigma of Nazi War Criminals (ou Anatomia do Mal: O Enigma dos Criminosos de Guerra Nazistas, na tradução livre), à BBC. Foi meio essa a conclusão a que chegou o psicólogo e arquirrival de Kelley, Gustave Gilbert (interpretado no filme por Colin Hanks), que descreveu Göring como um “psicopata amigável”.

Para Kelley, não havia nada que distinguisse aqueles homens do seu vizinho ou de alguém morando no Brasil. Claro que podia haver alguns com questões de saúde mental entre os milhões que se renderam ao nazismo. Mas, para ele, o nazismo foi uma doença sociocultural. Seus líderes em sua maioria queriam poder e benefícios e simplesmente não se importavam com os meios para conseguir isso.

Göring era um marido e pai amoroso, um homem culto que falava inglês perfeitamente e capaz de ocupar cargos diversos. E é isso que dá medo. Como disse Russell Crowe ao site Deadline: “É um lembrete de que essas pessoas são seres humanos e tomaram essas decisões coletivamente porque era o que podiam fazer sem serem punidas. E isso é algo muito assustador.”



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