Começou com os combustíveis, mas chegará aos preços de fertilizantes e, finalmente, aos dos alimentos. A incursão dos Estados Unidos no Oriente Médio acaba de completar um mês, as expectativas de que a guerra acabaria rapidamente caíram por terra e as consequências do fechamento parcial do Estreito de Ormuz já começam a afetar as projeções de inflação. Tem sido assim no mundo todo, e não seria diferente no Brasil.
O mais recente Boletim Focus mostrou que a projeção para o IPCA deste ano subiu pela terceira semana consecutiva, para 4,31%, e voltou a se aproximar do limite superior da meta de inflação. Há um mês, a expectativa do mercado financeiro era de 3,91%. Os analistas também ajustaram suas previsões para a Selic. Se há um mês esperavam que a taxa básica de juros encerrasse o ano em 12% ao ano, agora projetam que ela fique em 12,5% ao ano.
Tal como uma profecia autorrealizável, as projeções logo chegarão ao bolso do consumidor. O comportamento dos alimentos preocupa muito, pois o item é um dos que têm maior peso no cálculo da inflação. A consultoria Logos Economia, que antes da guerra estimava que o preço dos alimentos aumentaria 3% neste ano, elevou sua previsão para 4,4% assim que os conflitos tiveram início e ajustou novamente a estimativa, para 4,6%, após a divulgação da prévia da inflação oficial.
Não bastasse a guerra, o País ainda terá de lidar com os efeitos do El Niño na safra. Segundo o economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale, é improvável que a inflação cheia fique abaixo dos 4% neste ano, e o limite superior dependerá essencialmente da duração do conflito. Do lado positivo, o enfraquecimento do dólar tem ajudado a atenuar esses impactos no mercado doméstico, e o aperto monetário foi tão longo e intenso que ninguém enxerga a possibilidade de o Banco Central voltar a elevar os juros tão cedo.
Há muito pouco a ser feito em um choque de oferta, mas o governo não quer correr o risco de parecer inerte perante a inflação, ainda mais no momento em que pesquisas eleitorais apontam empate técnico entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro. No pacote de bondades, além de conter os preços do diesel, o governo quer limitar o reajuste da conta de luz, subsidiar o botijão de gás e encontrar maneiras de reduzir o endividamento das famílias.
Em comum, todas são ações paliativas, que atacam a consequência, e não a causa dos problemas. Os combustíveis acompanham a cotação do petróleo, o custo da energia aumenta em razão dos subsídios embutidos nas tarifas e os empréstimos se tornaram impagáveis porque o governo incentiva a população a se endividar para fazer a economia girar.
O Executivo gasta mais do que arrecada e dá força à inflação, enquanto o Banco Central mantém juros elevados para tentar mantê-la o mais próximo possível da meta. A guerra no Oriente Médio e o calendário eleitoral só exacerbam essa incongruência. Resta ao País torcer para que o conflito acabe de uma vez, pois o arsenal de medidas de um governo desesperado não parece ter fim.