Thursday, March 12, 2026
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Consumo de álcool cai entre jovens no Brasil e muda hábitos em bares e restaurantes

by admin7
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Uma mudança contundente começa a aparecer na forma como os brasileiros lidam com o álcool. O hábito de beber — por décadas associado a encontros, celebrações e à própria sociabilidade urbana — passa por uma transformação, especialmente entre os mais jovens. O fenômeno não significa o desaparecimento da bebida das mesas do país, mas indica uma alteração no ritmo e no modo de consumo.

Dados recentes apontam para esse movimento. Levantamento realizado pelo Ipsos-Ipec a pedido do CISA – Centro de Informações sobre Saúde e Álcool – mostra que 64% dos brasileiros declararam não consumir álcool em 2025, um aumento em relação aos 55% registrados em 2023. A mudança é mais evidente entre adultos jovens: na faixa de 18 a 24 anos, a abstinência passou de 46% para 64% em dois anos; entre 25 e 34 anos, subiu de 47% para 61%.

A pesquisa também indica mudanças na forma de beber. A frequência de consumo semanal ou quinzenal diminuiu, e entre aqueles que continuam consumindo álcool cresce a moderação: 39% dizem ingerir uma ou duas doses por ocasião. O consumo abusivo ainda preocupa — e segue sendo um desafio de saúde pública — mas apresentou leve recuo no período, passando de 17% para 15% da população.

Nos bares e restaurantes, essa transformação aparece de maneira mais gradual. O movimento não se traduz necessariamente em menos gente nos estabelecimentos, mas em mudanças no que chega às mesas. “O que estamos vendo não é exatamente uma queda brusca no consumo, mas uma desaceleração no crescimento”, afirma Paulo Solmucci, presidente-executivo da Abrasel. Segundo ele, cresce a procura por drinks sem álcool e cervejas zero, muitas vezes preparados com o mesmo cuidado estético das versões alcoólicas.

Veja: drinques sem álcool feitos por especialistas para o curtir o fim de semana

Para Solmucci, o movimento ainda não representa uma retração direta no faturamento dos bares. “O cliente continua frequentando os estabelecimentos. O que estamos percebendo é uma mudança no padrão de consumo”, afirma. Segundo ele, em muitos casos o consumidor passa a beber menos ao longo da noite, alternando pedidos ou reduzindo a quantidade de doses, o que altera a dinâmica tradicional de consumo nos bares.

Para além dos números e da percepção do setor, pesquisadores tentam compreender o que está por trás dessa mudança de comportamento, especialmente entre as gerações mais jovens.

A mixologista e pesquisadora, Néli Pereira, observa que o debate sobre moderação no consumo de álcool ganhou força nos últimos anos. Segundo ela, quando começou a falar publicamente sobre o tema, por volta de 2018, a discussão ainda era rara no Brasil. “Hoje todo mundo fala sobre isso”, diz. Para Néli, a mudança também aparece na oferta dos bares: coquetéis sem álcool, antes inexistentes ou pouco atraentes, passaram a ocupar mais espaço nos cardápios.

Essa transformação, no entanto, não ocorre de forma homogênea. De acordo com ela, o fenômeno é mais visível em bares especializados e em circuitos ligados à coquetelaria contemporânea. “Às vezes a bolha em que a gente vive está consumindo menos álcool, mas talvez seja justamente essa mesma bolha que frequenta coquetelarias e conhece mais sobre bebidas”, afirma. A pesquisadora também aponta que fatores de classe social influenciam o comportamento: a preocupação com moderação e a diversidade de produtos ainda estão concentradas principalmente entre consumidores das classes A e B.

Para Néli, a mudança também está ligada a um processo de educação do público sobre bebidas ocorrido na última década. Com a expansão do mercado de coquetelaria a partir de meados dos anos 2010, consumidores passaram a prestar mais atenção ao que bebem. “Existe hoje uma parcela do público que escolhe o que vai beber justamente para beber menos e melhor”, diz. Segundo ela, isso não significa necessariamente reduzir o consumo, mas transformar a relação com a bebida — um movimento que também tem incentivado bares e indústrias a ampliar a oferta de opções sem álcool.

A socióloga Mariana Thibes, coordenadora geral do CISA (Centro de Informações sobre Saúde e Álcool) que acompanha os dados sobre consumo de álcool no país, explica que o fenômeno não é exclusivo do Brasil e levanta hipóteses que ajudam a entender essa transformação.

Um alerta que ela explica na entrevista: o fato dos jovens estarem bebendo menos nem sempre significa que eles estão mais saudáveis. Vem entender o motivo

Se preferir a experiência, escute em áudio a entrevista com Mariana

Leia a seguir trechos da entrevista:

Os dados mostram que os jovens estão puxando a redução do consumo de álcool no Brasil. Já é possível entender o motivo?

A pesquisa mediu as mudanças de comportamento, mas não investigou diretamente as motivações. O que conseguimos identificar são os padrões de consumo entre os diferentes grupos. Para entender as razões, precisamos recorrer a hipóteses baseadas em estudos internacionais, porque essa queda não acontece apenas no Brasil.

Quais são as hipóteses mais discutidas hoje?

Uma delas é o aumento da preocupação com a saúde. Os jovens têm hoje mais acesso à informação sobre os riscos associados ao álcool, e isso pode influenciar suas escolhas. Muitos passam a reduzir o consumo ou simplesmente deixam de beber. Mas não é só.

Pesquisas qualitativas mostram que muitos jovens têm receio de que o consumo de álcool leve a algum tipo de perda de controle. Em um contexto em que praticamente tudo pode ser filmado e compartilhado nas redes sociais, existe o medo de que um deslize comprometa a reputação ou tenha consequências profissionais.

É uma geração muito cobrada em termos de performance. O custo de vida nas grandes cidades é alto, os empregos muitas vezes são instáveis, e há uma pressão constante por produtividade. Quando o jovem coloca tudo isso na balança, ele pode avaliar que o álcool pode atrapalhar ainda mais algo que já é difícil.

Historicamente, o álcool sempre esteve ligado à sociabilidade. Esse papel está mudando?

Ele continua existindo culturalmente, tanto no Brasil quanto em outros países. Mas parece menos indispensável para muitos jovens. Para gerações anteriores, beber era quase um passaporte para a sociabilidade. Hoje, dizer que não bebe já não é tão estranho quanto era antes.

O fato de beber menos significa que os jovens estão necessariamente mais saudáveis?

Não necessariamente. A saúde é um fenômeno complexo. Se a redução acontece por uma maior consciência sobre os malefícios do álcool, isso é positivo. Mas também precisamos considerar outros fatores, como possíveis mudanças na forma de socialização ou mais interações mediadas por telas.

Essa mudança pode alterar a cultura do bar no Brasil?

O bar continua sendo uma instituição muito forte na cultura brasileira. O que observo é mais uma transformação do que um enfraquecimento. Os bares começaram a oferecer mais opções sem álcool — cervejas zero, drinks elaborados sem álcool — e isso permite que as pessoas continuem frequentando esses espaços mesmo sem consumir bebidas alcoólicas.

O que podemos dizer é que há um movimento consistente em vários países. Para saber se ele representa uma transformação cultural duradoura, precisamos acompanhar esses dados ao longo dos próximos anos.



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