Sunday, March 29, 2026
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A perturbadora defasagem da Defesa

by admin7
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A advertência do ex-comandante da Aeronáutica Carlos de Almeida Baptista Júnior, em entrevista ao Estadão, de que as Forças Armadas “não estão minimamente preparadas para o conflito moderno”, não deve ser lida como mero desabafo corporativo. É um diagnóstico que expõe um descompasso alarmante entre o País e o mundo que o cerca. A Defesa no Brasil padece de subfinanciamento crônico. Mas tão ou mais grave que a escassez de recursos é a má alocação.

A guerra na Ucrânia mostrou que drones baratos podem neutralizar equipamentos caros e que inteligência, integração e velocidade de adaptação passaram a decidir conflitos. No Oriente Médio, operações combinam tecnologia, informação e precisão em níveis inéditos. Em resposta, países de todos os continentes revisam regras fiscais e ampliam gastos, e o dispêndio militar global bate recordes.

O Brasil move-se na direção oposta. O esforço da Defesa encolheu de 1,8% do PIB no fim do século passado para algo próximo de 1% hoje. Na contramão, apenas nos últimos quatro anos, o gasto mundial saltou de 1,59% para 2,01% do PIB global, segundo o Instituto Internacional de Estudos Estratégicos. Ao longo dos anos o chamado “dividendo da paz” degenerou, aqui, em complacência. Hoje esse dividendo virou pó, e essa complacência, ilusão.

O Brasil, é verdade, não sofre ameaças imediatas – e mesmo as remotas são menos perigosas que as que enfrentam muitos outros países –, mas está mais ameaçado do que há 10 ou 30 anos, pelo simples fato de que hoje o mundo está mais armado e instável – e deverá estar ainda mais amanhã.

Mesmo assim, o Brasil não só gasta pouco como, o pouco que gasta, gasta mal. Enquanto países da OCDE gastam, em média, 40% com pessoal e 25% com investimentos, aqui, cerca de 80% é consumido por pessoal e uma fração residual – em torno de 5% – sobra para investimentos frequentemente contingenciados ou executados com atrasos. O resultado é um sistema que combina o pior dos mundos: escassez, rigidez e ineficiência.

A ausência de previsibilidade orçamentária, a fragmentação de projetos e a dificuldade de estabelecer prioridades impedem que recursos já limitados se traduzam em capacidade real. A dependência externa em áreas críticas, de sensores a sistemas eletrônicos, limita a autonomia decisória. A defasagem não é só quantitativa: novas fronteiras militares em ciberdefesa, espaço e inteligência permanecem subdimensionadas.

As vulnerabilidades começam a se tornar visíveis – e, num futuro não muito distante, podem se tornar existenciais. Em um cenário de competição crescente por recursos e influência, ativos estratégicos como a Amazônia e o Atlântico Sul tornam-se mais cobiçados. Ao mesmo tempo, se a guerra contemporânea ainda pode ser consumada com caças e tanques, raramente começa com eles, e sim em redes, sistemas e cadeias logísticas.

No Brasil, a distinção entre defesa internacional e segurança doméstica é cada vez mais borrada. Se Baptista Jr. tem razão em advertir que as Forças Armadas não podem ser empregadas como polícia, também é verdade que o crime organizado não pode ser equiparado à criminalidade comum. Narcomilícias que atravessam fronteiras, acumulam arsenal militar e controlam territórios (de favelas cariocas a regiões amazônicas) configuram um fenômeno híbrido: não são ameaça militar clássica, mas tampouco delinquência ordinária.

A tradição pacífica brasileira nunca dispensou capacidade de ação. Soberania sem poder é retórica. Não se trata apenas de preparo militar, mas de orientação estratégica. Países podem conviver com restrições orçamentárias, mas não com prioridades difusas e execução precária.

Defesa não se improvisa. O Brasil precisa debater seriamente um caminho para recuperar o tempo perdido em busca de Forças Armadas modernas e profissionais, com todos os ônus e bônus que essa modernização implica. Têm razão os militares em demandar mais recursos do povo que protegem. E têm razão os civis em demandar melhor governança das forças que eles financiam. As duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo. O Brasil precisa gastar mais e gastar melhor.



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