Saturday, April 4, 2026
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Reprodução por clonagem é um beco sem saída

by admin7
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Por que pesquisa de genética premiada pelo Nobel é tão importante?

Estudo, que ganhou prêmio de Medicina 2024, abre caminho para melhorar tratamento contra o câncer.

Quem não se lembra da Dolly, o primeiro mamífero a ser clonado? Quando aquela fofa ovelhinha nasceu em 1996, na Escócia, foi um furor na mídia. Ela era uma cópia exata de outra ovelha, e logo a imprensa especulou sobre as possibilidades da tecnologia. E se produzíssemos clones de Pelé? As Copas seriam nossas para sempre. Em 1978 um filme de terror chamado Meninos do Brasil já antevia a possibilidade: 94 cópias de Hitler, produzidas no Brasil, seriam espalhadas pelo mundo para criar o quarto Reich.

Nos 30 anos que se seguiram a tecnologia foi desenvolvida para outras espécies de mamíferos, como ratos e camundongos. Hoje existem empresas que clonam seu gato, cachorro, ou cavalo por menos de US$ 100 mil. Tem gente querendo usar essa técnica para ressuscitar mamutes e Steven Spielberg fez exatamente isso com os dinossauros no filme Jurassic Park de 1993. As possibilidades seriam infinitas.

Imagem do filme Jurassic Park, de 1993 Foto: Universal Pictures

Mas durante os últimos 20 anos, um casal de cientistas japoneses, que foi o primeiro a clonar um camundongo em 1978, tentou avaliar a possibilidade de usar a clonagem para manter permanentemente uma linhagem de mamífero. Para tanto eles clonaram um camundongo (geração 1 ou G1). Deixaram esse camundongo crescer e a partir dele fizeram outro clone (G2), deixaram ele crescer e usaram o G2 para produzir o G3 e assim por diante, até o G58. São 58 gerações de clones, um derivado do outro. Como é possível criar somente três gerações de camundongos por ano, levaram 20 anos trabalhando continuamente para chegar no G58.

O que eles descobriram é que a partir do G27 foi ficando cada vez mais difícil obter um clone, até que nasceu, depois de muitas tentativas o G58. E ele se mostrou impossível de clonar. Todas as tentativas geram embriões inviáveis. Foi o fim da linha. Por si só a descoberta é importante, mas o mais interessante é que eles descobriram por que a clonagem sequencial é impossível, e, portanto, esse método não é viável para manter vivas cópias exatas de um indivíduo único.

O mais interessante nesse trabalho é a descoberta do mecanismo que torna a clonagem sequencial inviável no longo prazo. Na medida que os cientistas iam obtendo cada nova geração de clone, o animal era cuidadosamente analisado. Apesar de gerações sem se reproduzir através do sexo os animais, todos fêmeas (o camundongo original era fêmea), ainda eram capazes de engravidar e ter filhos férteis, mas suas placentas eram um pouco maiores. Seu comportamento era normal e todos os parâmetros biológicos medidos também eram normais. Isso levou os cientistas a publicarem um trabalho, quando chegaram na G25, onde sugeriam que o processo poderia se tornar permanente.

Foi somente quando começaram a sequenciar o genoma de cada geração, a partir do cadáver congelado de cada camundongo, que foi possível entender o que acontecia ao longo das gerações.

Hoje existem empresas que clonam seu gato, cachorro, ou cavalo por menos de US$ 100 mil Foto: Adobe Stock

Lembre que cada geração era constituída por um único indivíduo teoricamente com o genoma idêntico ao da geração anterior. Mas ao sequenciar e comparar os genomas dos animais de cada geração, os cientistas descobriram que o genoma foi se modificando, principalmente pela perda de fragmentos de DNA e pequenas mutações. Em um ponto do processo, próximo a G50 toda uma cópia do cromossomo X foi perdida. Os cientistas acreditam que foram essas perdas que passaram a tornar cada vez mais difícil o processo de clonagem, até que ele ficou impossível em G58.

Esses resultados demonstram que o genoma vai se degradando à medida que as gerações de clones se sucedem até gerar um genoma incapaz de produzir novos clones. Isso tem implicações importantes para entender a importância da segregação e combinação dos genes dos dois pais. Isso acontece na reprodução sexuada quando um espermatozoide e um óvulo são produzidos e se juntam na fertilização. Até agora se acreditava que a importância da reprodução sexuada se devia a ela permitir uma maior diversidade genética ao longo do tempo. Essa descoberta sugere uma outra função da reprodução sexuada: a preservação de um genoma viável ao longo das gerações.

Ian Wilmut, biólogo do Instituto Roslin (Escócia), e a ovelha Dolly, primeiro clone bem-sucedido de um mamífero – Foto: divulgação Foto:

Mas é bom lembrar que existem diversos animais e plantas que se reproduzem de maneira clonal – a batata, a banana e as bactérias são exemplos. Esses seres vivos talvez tenham mecanismos de preservação do genoma que aparentemente não existem nos vertebrados. Como sempre uma descoberta importante gera outras perguntas para a geração seguinte de cientistas responder.

Mais informações: Limitations of serial cloning in mammals. Nature Comm. https://doi.org/10.1038/s41467-026-69765-7 2026



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